A morte de Kurt Cobain, tratada como suicídio desde abril de 1994, voltou ao centro de uma disputa oficial em Seattle. O órgão de controle da polícia da cidade abriu uma revisão para apurar a alegação de que o ex-chefe de polícia reconheceu contradições entre as provas recolhidas e o que foi registrado no laudo original.

Segundo pessoas ligadas ao caso ouvidas pelo jornal New York Post, o Office of Police Accountability (OPA) passou a investigar a denúncia de que Shon Barnes teria admitido que as evidências coletadas na cena da morte do vocalista do Nirvana eram "contraditórias" em relação à conclusão do relatório policial.

Cobain tinha 27 anos quando foi encontrado morto, com um ferimento de tiro na cabeça, numa estufa de sua mansão em Seattle, em 8 de abril de 1994. Em poucas horas, os investigadores classificaram o caso como suicídio.

A mão sem sangue

O ponto mais sensível diz respeito a uma foto forense: de acordo com a denúncia, não havia sangue na mão esquerda que Cobain teria usado para segurar o cano da espingarda perto da boca. Para os pesquisadores, essa ausência seria incompatível com a versão oficial.

A suposta admissão teria acontecido em 4 de novembro de 2025, num encontro de Barnes com o grupo de voluntários "Who Killed Kurt?", que defende que a morte foi um homicídio encenado. Participaram a investigadora Michelle Wilkins e o assessor jurídico Mark Larson, ex-promotor do condado de King.

O grupo discutiu com o então chefe de polícia um artigo revisado por pares, publicado no International Journal of Forensic Sciences, que conclui que Cobain foi assassinado. Quando Larson sugeriu que a mão poderia ter sido posicionada sobre a arma depois do disparo, Barnes teria reagido: "Então essa é a explicação, a mão é colocada depois do evento de respingo de sangue."

Questionado sobre a velocidade com que o caso foi fechado, o ex-chefe teria afirmado: "A determinação acontece depois de uma investigação." E completou: "Embora eu não estivesse aqui na época, como investigador treinado, nós investigamos cada morte como se fosse um homicídio, e então tomamos uma decisão."

Investigação segue fechada

Em janeiro de 2026, a polícia de Seattle (SPD) anunciou que não reabriria o caso, mantendo o resultado de uma revisão de 2014 que também não encontrou indícios de crime. Barnes deixou o comando da corporação em julho, após críticas pela forma como conduziu a resposta a um tiroteio em massa na cidade.

O OPA abriu a apuração depois de receber, em 28 de junho, uma queixa de um seguidor do trabalho do "Who Killed Kurt?". Wilkins afirmou esperar que a revisão esclareça o que a polícia fez após receber a nova análise forense entregue pelo grupo.

"Fornecemos à SPD novas evidências que poderiam e deveriam ter sido submetidas a testes", escreveu Wilkins ao órgão em 5 de outubro. "Pelo que sabemos até agora, parece que os testes ou uma investigação adicional não ocorreram."

A investigadora ponderou, porém, os limites da própria tese: "Nossa posição não é que provamos de forma conclusiva o homicídio naquele encontro. É que as questões que apresentamos exigem um olhar completo e renovado."

A viúva Courtney Love, que acredita que o marido tirou a própria vida, exigiu em 1995 que todo o arquivo policial sobre a morte fosse entregue a ela, sem cópias retidas pela polícia. O pedido foi negado pela corporação.

Bev Ireland, pesquisadora e porta-voz do grupo, classificou como "encorajador" o interesse do OPA. Já o Instituto Médico Legal do condado de King afirmou ter conduzido "uma autópsia completa" e seguido "todos os seus procedimentos" até concluir que a morte foi um suicídio. Barnes, o OPA e a SPD não responderam aos pedidos de comentário.

Símbolo do grunge e da geração dos anos 1990, Cobain transformou faixas como "Smells Like Teen Spirit" e "Come As You Are" em hinos que seguem influenciando novas gerações. Em setembro, os integrantes remanescentes se reuniram no palco do VMA e homenagearam o músico.